Dando sequência à série de entrevistas do PORTAL, buscando compreender  as razões dos altos índices de violência em nosso município, conversamos com o Dr. Daniel Rosa, Delegado titular da DHBF – Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, órgão responsável pela investigação dos homicídios ocorridos na nossa Região.

Segundo o Delegado, aproximadamente 70% dos homicídios que acontecem nessa região resultam da disputa de grupos criminosos armados “que duelam entre si na busca pelo domínio de território afim de praticarem atividades ilícitas para aumentarem os seus lucros … milicianos contra traficantes, traficantes contra milicianos, milicianos contra milicianos e traficantes contra traficantes.“.

Ele assegura que a Polícia Civil, mesmo com todas as dificuldades que enfrenta atualmente, tem colocado na cadeia todo mês dezenas de criminosos tanto do campo do tráfico quanto do campo das milícias; e faz um apelo para que a população colabore informando sobre movimentações suspeitas e ações dos delinquentes.

Eis a íntegra da entrevista com o Dr. Daniel Rosa:

Como o Sr. vê a estatística do Atlas da violência, divulgado no início do mês, que classifica Queimados como a cidade mais violenta do Brasil ?

“Do ponto de vista pessoal essa é uma notícia que entristece a todo mundo, mas pelo viés profissional é interessante, pois chama a atenção da sociedade, dos segmentos públicos e privados para a situação que a cidade de Queimados vem vivendo, nesse cenário de letalidade violenta. Mas estamos cientes disso, já vínhamos com uma atenção dedicada para essa região de Queimados e cidades adjacentes, e ações já estão sendo preparadas a fim de reprimir com eficácia esse fenômeno que é a criminalidade em massa que vem aumentando nessa localidade.

O secretário municipal de segurança de Queimados disse essa semana ao PORTAL que esses números do Atlas da Violência são um pouco ultrapassados, de 2016, e  que de lá para cá houve uma certa redução da criminalidade no município. O senhor confirma essa informação?

No mês de Junho, de acordo com dados do Portal de Transparência que a Secretaria de Segurança disponibiliza, nós reduzimos os homicídios na Baixada Fluminense comparados a 2017 em torno de 18%. No mês de maio nós tivemos uma redução de 16%  e no mês de Abril, 10%. Então isso representa uma grande conquista pra sociedade e mostra que a Polícia Civil vem trabalhando mesmo diante das adversidades no intuito de reprimir essas ações delituosas.

A DHBF é responsável pelas investigações e apuração desses homicídios. O senhor poderia fazer um diagnóstico sobre o que acontece nessa região que justifique essa explosão de mortes e violência?

O que nós vemos na região de Queimados e adjacências é que há uma disputa intensa pelo território. As organizações criminosas disputam entre si pelo domínio daquele território a fim de praticar atividades ilícitas para aumentarem seus lucros. Nós temos constatado que na cidade vem havendo confronto entre grupos de milicianos contra traficantes, traficantes contra milicianos, milicianos contra milicianos e traficantes contra traficantes. Então dentro do número de homicídios que ocorrem naquela região se pode afirmar que chega a ser um número assustador de aproximadamente 70% deles possuem essa motivação, grupos criminosos armados lutando entre si pelo domínio do território.

As investigações da DHBF têm levado efetivamente a prisão desses criminosos, ou de alguns deles?

Sim, as investigações são iniciadas quando a Polícia Civil através da DHBF é acionada para um local de crime. Nós dispomos de uma equipe de aproximadamente 18 policiais que comparece a toda cena de crime, a todo acionamento de homicídio. Esse corpo de policiais (delegados, agentes, peritos,papiloscopistas…) que comparecem até a cena do crime analisam a perícia e iniciam a partir de então uma investigação que na maioria das vezes termina com a identificação e prisão daquele assassino que atuou naquele crime específico.

Essas prisões têm sido numerosas?

Sim, a Polícia Civil está trabalhando, está atenta. As dificuldades existem mas estamos conseguindo passar por cima dessas adversidades que encontramos. Estamos tendo sim um expressivo número de prisões e indiciamentos na região de Queimados.

Há quadros na polícia  suficientes para dar conta de tantos casos assim?

Como todo o país vem passando por essa crise financeira a Polícia Civil também não está distante disso, mas diante da nossa especificidade, da nossa função, que lidamos com vidas e apuramos crimes, o quadro que nós temos atualmente vem suprindo essa demanda e nós estamos atendendo à população, procurando dar o melhor de nós para termos um resultado satisfatório e reprimir os crimes que vem acontecendo na região.

Desculpe pela pergunta, mas o senhor às vezes tem a sensação de estar “enxugando gelo”?

Essa é uma situação que às vezes, no lado pessoal, tenho um pouco essa impressão, mas sob o lado profissional a satisfação é muito grande de tirar um homicida de circulação. Então a gente sente que com a prisão de um criminoso que tira a vida de outra pessoa ela tem uma importância, uma vez que ela retira aquele indivíduo de circulação, isso traz pra nós que trabalhamos nessa área uma sensação de dever cumprido, uma satisfação pessoal e profissional muito grande.

Existe uma tese de que a instalação das UPPs no Rio de Janeiro foi responsável pela migração de criminosos para a Baixada Fluminense nos últimos anos. O senhor acha que procede essa tese?

O criminoso fica onde ele se sente confortável, onde tem uma zona de conforto, uma região onde possa praticar suas atividades ilícitas com tranquilidade, permanece ali. Quando acontece uma situação de repressão como foi o caso da implementação dessas UPPs, onde se aumentaram as repressões a áreas controladas pelos traficantes, é natural que ocorra este fenômeno e que procurem uma região de maior conforto e que tenha uma menor incidência de ação policial. Então eles procuraram se refugiar em outras localidades e a Baixada Fluminense foi uma dessas.

Gostaríamos que o Senhor desse uma palavra para os nosso leitores. Nós sabemos que a Polícia Civil não é a única responsável pela repressão ao crime. De que forma nós cidadãos podemos contribuir para ajudar a conter essa violência e construir uma sociedade mais pacífica?

É importante que todas as pessoas que sejam moradoras de Queimados ou de cidades próximas tenham a consciência de que todos são muito importantes dentro desse tema de segurança pública, porque está bem expresso dentro da nossa Constituição da República que a segurança é dever do Estado, porém é responsabilidade de todos. Então esse artigo da Constituição traz pra toda a sociedade brasileira a responsabilidade de contribuir com a segurança pública. Na prática é entendido como uma participação a nível de propagar as informações. Aquele morador que está se deparando com determinadas condutas que não se adequem à normalidade, que contactem a polícia, informem ao disque-denúncia, procurem-nos na DHBF e tragam essas informações. A participação da população na segurança pública é muito importante, nós estamos de braços abertos para receber as informações de moradores; pessoas que queiram colaborar são sempre muito bem vindas.”

O telefone da DHBF para contato com o público é o 2779-6692.

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